“Os tres mau amados”

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O amor comeu meu nome

Minha identidade

Meu retrato

O amor comeu minha certidao de idade

Meu endereco

O amor comeu meus cartoes de visita

O amor veio e comeu todos os papeis onde eu escrevera meu nome

O amor comeu minha altura

Meu peso a cor de meus olhos e de meus cabelos

O amor comeu meus remedios minhas receitas medicas

Minhas dietas

O amor comeu meu estado e minha cidade

O amor, comeu minha paz e minha guerra

Meu dia e minha noite

Meu inverno e meu verao

Comeu meu silencio

Minha dor de cabeca

Meu medo da morte.

 

Joao Cabral de Mello Neto

 

Mephistópheles

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Goethe
adaptado por Antonio Abujamra


Eu sou Mephistópheles. Mephistópheles, é! o diabo! E todos vocês são Faustos. Faustos, os que vendem a alma ao diabo.

Tudo é vaidade neste mundo vão, tudo é tristeza, é pop, é nada. Quem acredita em sonhos é porque já tem a alma morta. O mal da vida cabe entre nossos braços e abraços.

Mas eu não sou o que vocês pensam. Eu não sou exatamente o que as Igrejas pensam. As Igrejas abominam-me. Deus me criou para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua.

A minha luz paira sobre tudo que é fútil: margens de rios, pântanos, sombras.

Quantas vezes vocês viram passar uma figura velada, rápida, figura que lhe darei toda felicidade. Figura que te beijaria indefinidamente. Era eu. Sou eu.

Eu sou aquele que sempre procuraste e nunca poderá achar. Os problemas que atormentam os Deuses. Quantas vezes Deus me disse citando João Cabral de Melo Neto: Ai de mim, ai de mim. Quem sou eu?

Quantas vezes Deus me disse: Meu irmão, eu não sei quem eu sou.

Senhores, venham até mim, venham até mim, venham. Eu os deixarei em rodopios fascinantes, vivos nos castelos e nas trevas, e nas trevas vocês verão todo o esplendor.

De que adianta vocês viverem em casa como vocês vivem? De que adianta pagar as contas no fim do mês religiosamente, as contas de luz, gás, telefone, condomínio, IPTU?

Todos vocês são Faustos. Venham, eu os arrastarei por uma vida bem selvagem através de uma rasa e vã mediocridade, que é o que vocês merecem.
As suas bem humanas insaciabilidade, terão lábios, manjares, bebidas.

É difícil encontrar quem não queira vender sua alma ao diabo.

As últimas palavras de Goethe ao morrer foram: Luz, luz, mais luz!!

Sobre o(a) autor(a):
Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832), nasceu em Frankfurt. Grande poeta e pensador alemão. Sua vasta obra abrange peças dramáticas, romances, contos, poesias líricas, cartas e descrições de viagem.
Obras como: Fausto, Afinidades Eletivas e Ifigênia

Jesus, um nordestino

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Diógenes da Cunha Lima

Eu penso que Jesus devia de nascer em Belém, na Paraíba.

Sim, em Belém, perto de Guarabira e vizinho de Pirpirituba. E se não bastasse a vizinhança a indicar a rima e o caminho, perto de Nova Cruz.

Era filho caçula de Dona Maria, mulher dona de beleza e que germinava bondade nas pessoas.

Era menino moreno, muito esperto, embalado em rede de algodão cru. Tinha sandálias com currulepo entre os dedos e cajus, em dezembro, a lhe matar a sede.

E seu pastor fora um vaqueiro nordestino, de gibão e perneira e guarda-peito, para livrar as suas carnes da Jurema.

Vieram adorar o deus-menino os Santos Reis entrelaçados de bom jeito: um negro, um índio e um branco português.

Seria fácil encontrar espinhos, para coroar a fronte de Jesus, e um pau de arara em São José do Egito para levá-lo, retirante, para São Paulo.

Um santo feito para as grandes secas!

Meu Deus, meu Deus, por que nos abandonaste, exclamaria enquanto repartia com o povo nu as suas vestes, multiplicadas como pães ou peixes.

Quando criança, o Jesus da Paraíba era carpinteiro como seu pai, fazendo caixões azúis para os anjos do lugar. E proezas num cavalo de pau. Sim, num cavalo de pau, pois seu jumento era muito magro e nem servia para carne de jabá.

Jesus era um menino desnutrido a fazer o bem, desnutrido como os outros da região, onde as coisas só vão na base do milagre ou da força parida da vontade.

Eu penso que Jesus devia de nascer em Belém, na Paraíba!

Sobre o(a) autor(a):
Nascido em Nova Cruz (RN) no ano de 1937, o poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima formou-se em Direito. Ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem 13 livros publicados. É membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

Trecho do texto de David Hume

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David Hume

É somente na opinião pública que se fundamentam os governos. Desde os despóticos e militarizados, até os mais liberais e populares.
Não é, por isso, estranho o quanto mentem os poderosos com a ajuda dos meios
de comunicação.

Sobre o(a) autor(a):
Nascido na Escócia em 1711 – 1776.
Um dos mais célebres filósofos da Época Moderna.
Grande amigo de Adam Smith e Jean Jacques Rousseau.
Fez sua despojada autobiografia, publicada postumamente.


 

Colagem de pensamentos – ÍNDIOS

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Antônio Callado / Murilo Mendes / Noel Nutels

Os índios fascinam a gente porque são anteriores ao tempo.

Ao que parece, eram nômades natos.
Banhistas contumazes. Mulherengos.

Como todos os povos que atingiram um alto nível de civilização, os índios eram irrevogavelmente distraídos.

Não costumavam trabalhar. Já que não lhes apetecia comprar nem vender, qualquer trabalho resultava-lhes supérfluo.

E os índios desprezavam o supérfluo, ao contrário
de nós próprios que, fabricando diariamente milhares de objetos, acabamos por desembocar na guerra, máquina de matar homens e de… Incinerar objetos.

É um erro pensar que o índio prefere a nossa civilização!

Fausto

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Goethe

O destino do homem como se assemelha ao vento
A alma do homem que se assemelha à água
Por que tanto tormento, tanta aflição?
Morrer é só não ser visto
É preciso abraçar a volúpia
Fartar-se de prazeres
Não ter medo da morte

Sobre o(a) autor(a):
Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832), nasceu em Frankfurt. Grande poeta e pensador alemão. Sua vasta obra abrange peças dramáticas, romances, contos, poesias líricas, cartas e descrições de viagem.
Obras como: Fausto, Afinidades Eletivas e Ifigênia

Colagem de vários autores

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Voltaire / William James / Victor Hugo / Dante Milano


Temos um grande assunto a tratar aqui:
a felicidade!…
… ou, ao menos, ser o menos infeliz que se possa neste mundo.
Eu não poderia suportar que me dissessem que quanto mais se pensa, mais se é infeliz. Isso vale em relação às pessoas que pensam mal. Não estou falando das pessoas que pensam mal dos outros, o que pode ser divertido, mas… tragicamente divertido!
Falo daqueles que pensam de maneira errada, dos que rearranjam os seus preconceitos e julgam estar… pensando! Estes, sim, merecem compaixão, porque têm uma doença da alma, e toda doença é um estado triste. Infeliz.
Amo as pessoas que pensam de forma correta, mesmo aquelas que pensam de maneira diferente de mim.
Pensar, meus amigos, é um ato que põe em dúvida a estrutura de tudo!


 

Palavras de Drummond

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Carlos Drummond de Andrade


Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.

Sobre o(a) autor(a):
Nascido em 1902 em Itabira do Mato Dentro – MG, faleceu no Rio de Janeiro em 1987. Chegou a se formar em Farmácia. Seu rigor na literatura beira a obsessão. Escreveu poesias, crônicas, contos e ensaios. Traduziu autores importantes para o português.

 


 

 

A verdadeira dívida externa

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Guaicaipuro Cautémoc

Eu, Guaicaipuro Cautémoc, descendente dos que povoaram a américa há 40 mil anos, vim aqui encontrar os que nos encontraram há apenas 500 anos.

O irmão advogado europeu me explica que aqui toda dívida deve ser paga, ainda que para isso se tenha que vender seres humanos ou países inteiros.

Pois bem! Eu também tenho dívidas a cobrar. Consta no arquivo das Índias Ocidentais que entre os anos de 1503 e 1660, chegaram à Europa 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata vindos da minha terra!… Teria sido um saque? Não acredito. Seria pensar que os irmãos cristãos faltaram a seu sétimo mandamento.

Genocídio?… Não. Eu jamais pensaria que os europeus, como caim, matam e negam o sangue de seu irmão.

Espoliação?… Seria o mesmo que dizer que o capitalismo deslanchou graças à inundação da Europa pelos metais preciosos arrancados de minha terra!

Vamos considerar que esse ouro e essa prata foram o primeiro de muitos empréstimos amigáveis que fizemos à Europa. Achar que não foi isso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que me daria o direito de exigir a devolução dos metais e a cobrar indenização por danos e perdas.

Prefiro crer que nós, índios, fizemos um empréstimo a vocês, europeus.

Ao comemorar o quinto centenário desse empréstimo, nos perguntamos se vocês usaram racional e responsavelmente os fundos que lhes adiantamos.

Lamentamos dizer que não.

Vocês dilapidaram esse dinheiro em armadas invencíveis, terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo. E acabaram ocupados pelas tropas da OTAN.

Vocês foram incapazes de acabar com o capital e deixar de depender das matérias primas e da energia barata que arrancam do terceiro mundo.

Esse quadro deplorável corrobora a afirmação de Milton Friedmann, segundo o qual uma economia não pode depender de subsídios.

Por isso, meus senhores da Europa, eu, Guaicaipuro Cautémoc, me sinto obrigado a cobrar o empréstimo que tão generosamente lhes concedemos há 500 anos. E os juros.

É para seu próprio bem.

Não, não vamos cobrar de vocês as taxas de 20 a 30 por cento de juros que vocês impõem ao terceiro mundo.

Queremos apenas a devolução dos metais preciosos, mais 10 por cento sobre 500 anos.

Lamento dizer, mas a dívida européia para conosco, índios, pesa mais que o planeta terra!… E vejam que calculamos isso em ouro e prata. Não consideramos o sangue derramado de nossos ancestrais!

Sei que vocês não têm esse dinheiro, porque não souberam gerar riquezas com nosso generoso empréstimo.

Nas há sempre uma saída: entreguem-nos a Europa inteira, como primeira prestação de sua dívida histórica.

Sobre o(a) autor(a):
Fala do cacique Guaicaipuro Cautémoc numa reunião com chefes de estado da Comunidade Européia.